Captação de Recursos: Conheça o doador individual no Brasil

Por Dr. José Carlos Soares

 

Antes de adentrar efetivamente no tema do nosso artigo, destacamos que a legislação civil, qual seja o Código Civil no artigo 54 e seus incisos prevê sob pena de nulidade os itens obrigatórios que deverão constar no Estatuto Social da Associação.

Como o assunto aqui tratado é Captação de Recursos destacamos que o inciso IV do artigo 54 do Código Civil assim determina:

Artigo 54 – IV – as fontes de recursos para sua manutenção.

Em sua maioria os Estatutos apontam como uma das fontes de sua manutenção as Doações. Contudo, poucos dirigentes trabalham o doador individual como uma de suas fontes para captar recursos.

Dessa forma, o presente artigo traz um panorama do doador individual e a nossa intenção é despertar as ONGs, para essa importante fonte que ainda é pouco explorada.

 

Cenário da Doação no Brasil

O aporte financeiro as ONGs, em nosso país cresce de maneira lenta, sendo que no ano 2017 o Brasil ocupava o 75º lugar no Índice de Doações Mundiais da Charities Aid Foundation (CAF).

Objetivando arrebanhar doadores individuais busca-se promover a cultura de doação, como exemplo apontamos a Campanha denominada “O dia de Doar” a qual é feita uma vez ao ano e mobiliza todo o país.

Tal Campanha é realizada no Brasil desde 2013, e tem sua origem nos Estados Unidos, onde começou em 2012, e foi criada por uma organização chamada 92Y, que fica em Nova Iorque, e hoje é uma campanha mundial, com mais de 35 países oficialmente participando.

Mas nem tudo são flores, aqui em nosso país ainda persiste muita desconfiança em relação as doações às ONGs, certamente resquícios das CPIs da ONGs, que à época repercutiu em todo país e que infelizmente de forma generalizada maculou o trabalho das ONGs sérias.

Para que essa imagem seja apagada faz-se necessários que as Organizações divulguem o relevante trabalho por elas desenvolvidos e da seriedade desse trabalho. E isso se concretizará com a transparência nas suas ações, com a prestação de contas a sociedade do que se arrecada e qual é o efetivo resultado de seus projetos no cumprimento de sua Missão junto a causa que apoia.

Fato a merecer destaque é que, os doadores internacionais estão paulatinamente retirando seus apoios às ONGs do Brasil, já que, consideram nosso país de renda média, e essa retirada de apoio externo, entendemos ser prematura e prejudicial. A grave crise política e econômica que atingiu o Brasil em 2014, também tem parte da responsabilidade por esse cenário.

 

Sobre as doações individuais no Brasil

Reproduzimos aqui o que apresenta a segunda edição do Brasil Giving Report, que abrange o período de agosto de 2017 a julho de 2018, a qual traz um retrato do comportamento dos brasileiros no que diz respeito a doação individual.

As principais conclusões da análise sobre doações individuais no Brasil são as seguintes:

  • As pessoas no Brasil continuam a doar dinheiro no mesmo ritmo registrado em 2017. Sete em cada dez (70%) doaram dinheiro nos últimos 12 meses, seja a uma organização social, a uma igreja ou organização religiosa, ou patrocinando alguém.
  • As causas mais populares permanecem as mesmas do ano passado, com aproximadamente metade dos doadores (52%) apoiando organizações religiosas/igrejas.
  • A quantia típica doada (mediana) ou patrocinada pelos que fizeram doações nos últimos 12 meses é de R$ 200,00.
  • A doação em dinheiro é o método mais comum, sendo utilizado por cerca de dois terços dos doadores (68%).
  • As principais razões para doar permanecem inalteradas desde 2017. “Porque faz com que se sintam bem” é a razão mais comum para a doação, com metade das pessoas citando esse motivo.
  • De forma consistente com os resultados de 2017, mais de metade das pessoas (53%) fez trabalho voluntário nos últimos 12 meses.
  • A maioria dos entrevistados considera que o impacto das organizações sociais no Brasil é positivo para as comunidades locais, para o Brasil como um todo e internacionalmente.
  • “Ter mais dinheiro” é o fator mais citado pelos pesquisados como estímulo para as pessoas doarem mais tempo, bens ou dinheiro nos próximos 12 meses (57%).

 

Os patamares de doação permaneceram consistentes com 2017

Quase oito em cada dez pessoas afirmam ter praticado pelo menos uma das atividades listadas nos últimos 12 meses (78% contra 76% em 2017), principalmente doando dinheiro para uma igreja ou outra organização religiosa (58%),

  • Para uma organização social/organização sem fins lucrativos (55%) ou diretamente para pessoas necessitadas (52%).
  • Pouco mais de seis em cada dez pessoas realizaram uma das atividades nas últimas 4 semanas (63% contra 64% em 2017).

As mulheres são mais propensas que os homens a ter participado nos últimos 12 meses de alguma das atividades listadas (80% contra 75% dos homens).

 

Doação em dinheiro

 Sete em cada dez pessoas (70%) relatam ter doado dinheiro nos últimos 12 meses, em conformidade com os padrões observados em 2017 (68%). Isso ocorreu através de uma combinação de doação para uma igreja ou organização religiosa (58%), para uma organização social/organização sem fins lucrativos (55%) ou patrocinando alguém (33%).

Além desses métodos formais, 52% das pessoas também fizeram doações em dinheiro, de modo mais informal, diretamente para pessoas e famílias necessitadas (o índice aumenta para 60% no caso da faixa etária entre 25 e 34 anos).

Mais de duas a cada cinco pessoas (46%) afirmaram ter doado dinheiro nas últimas 4 semanas, índice inalterado desde 2017.

Embora tenha havido pouca diferença entre os grupos etários na tendência de fazer doações em 2017, na pesquisa de 2018 as pessoas com idade entre 25 e 34 anos se mostraram significativamente mais propensas a doar nos últimos 12 meses em comparação com as de mais de 55 anos (75% contra 64%).

Especificamente, houve um aumento significativo na proporção de pessoas da faixa etária entre 25 e 34 anos que doaram dinheiro para uma organização social/ organização sem fins lucrativos nos últimos 12 meses (de 52% para 62%) e que patrocinaram alguém (crescimento de 32% para 43%).

Aqueles com renda familiar anual superior a R$ 50.000,00 se mostraram significativamente mais propensos a praticar alguma das atividades de doação (77% contra 68% dos com renda familiar anual abaixo de R$10.000,00), da mesma forma que em 2017.

 

Para quais causas as pessoas doam

As três principais causas para doação são as mesmas das relatadas em 2017 e com taxas muito semelhantes.

  1. Apoiar organizações religiosas/igrejas é a causa mais popular no Brasil, com metade dos doadores (52%) tendo feito esta opção.
  2. Em seguida vem o apoio às crianças (38%) e
  3. Ajuda aos pobres (31%).

A única causa com uma diminuição significativa em 2018 é o apoio às instituições médicas (de 12% dos doadores para 8%).

Pela minha experiência de 13 anos de atuação junto as Organizações do Terceiro Setor afirmo categoricamente que o “calcanhar de Aquiles” das Organizações é a Captação de Recursos.

Pelos dados aqui trazidos observamos que se a organização que você atua ou apoia não está no rol das três principais causas para doação, a sua organização tem um sério problema em obter os recursos de doadores individuais.

Deixo aqui o meu alerta, se as Organizações não buscarem a sua fatia de contribuição junto aos doadores individuais, não batalharem para o aumento dessas doações certamente estará caminhando para o seu fechamento.

Forte Abraço

@terceirosetorlegal

Mande seu comentário terei o maior prazer em te ouvir.

Se Você tiver sugestão de temas também fique à vontade e nos envie.

Sucesso.

Dr. José Carlos Soares, Graduado em Direito pela Faculdade de Direito de Itu- e Pós-Graduado em Aspectos Sócio Econômicos da América Latina e o Mercosul pela UNISO – Universidade de Sorocaba. Advogado Militante há 28 anos, Especializado em Direito do Terceiro Setor. Ocupou o Cargo de Vice-Presidente da Comissão do Terceiro Setor da 24ª Subsecção da OAB de Sorocaba/SP. Ministra Cursos e Palestras sobre os Seguintes Temas: Captação de Recursos, Fundação e Legalização de ONG e OSC, Voluntariado, Elaboração de Projetos, Responsabilidade Social Empresarial, Gestão, Aspectos Trabalhistas para Terceiros Setor. Autor do Manual “Como Fundar Uma ONG Passo a Passo”. E-mail: terceirosetorlegal@gmail.com .

Crédito da Imagem:  Steve Buissinne por Pixabay